"Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir." Amyr Klink

{ Treze }

[Texto postado com atraso]

Queridos leitores (?), estou tendo um caso.
Um não, três. Pollan, Petrini e Carneiro são os novos homens da minha vida. Não passo um dia sem me relacionar com os três e já faz algumas semanas que acordo e durmo pensando neles.
Inicialmente, as relações eram mais saudáveis. Diria até que eram excitantes. Na época, estava morando na Bahia, e ficava louca pra voltar do trabalho e encontrá-los ou levá-los à praia comigo pela manhã, para algumas horas super agradáveis.
Quando cheguei em Brasília, as coisas mudaram um pouco. Comecei a sentir uma pressão que não existia antes. Os sentimentos já não estavam mais tão à flor da pele e o romance começou a desandar. Chegamos até a dar um tempo e durante alguns semanas, não encontrei nenhum deles. E, sabe, o problema não são eles... Bom, tampouco sou eu, mas acho que é a maneira como nos relacionamos e que nos foi imposta porque eu mesma não queria que a relação fosse assim. A obrigação de se ver, as horas a fio que passamos juntos sem às vezes contribuirmos nada uns com os outros.
Claro, há dias em que tudo flui e é uma maravilha. Que pulo do Petrini pro Pollan, do Pollan pro Petrini, daí me aparece o Carneiro e me completa como ninguém. Vou dizer a verdade logo já que não quero ficar escondendo nada: às vezes, alguns outros entram no meio! Mas é que todos nos entendemos tão bem. Tento atendê-los igualmente e usar um pouco do meu tempo com cada um, pois as formas com que me acrescentam podem ser bastante diferentes. Bom, acho que eles não se importam muito e tudo vai indo bem até que me dá um '5 minutos' e eu não consigo olhar pra cara de nenhum! Nenhum! E preciso sair pela cidade e espairecer. Ouvir uma música. Cozinhar.
Então criamos essa relação bem intensa e um tanto sufocante, e ando pensando que devemos nos afastar por um tempo. Sabe? Foi too much. É claro que nunca os abandonarei por completo, só acho que devo buscar uns novos ares por agora. Quem sabe o Roux ou o próprio Ruhlman -- é certo que já ando bem interessada no Meyer e vira-e-mexe flertamos um pouco nos fins de noite. Ou mesmo a Parisot, que me foi apresentada há pouco por uma amiga -- ainda que essa seja uma mudança bem significante no meu... digamos... estilo.
Certo é que ainda temos esse fim de semana juntos e quero fazer desses dias um momento intenso, tirar o máximo que posso de cada um e deixá-los satisfeitos. Daí dizer-lhes 'adeus'.
Até porque não os convidei pra viagem. Ah não! Em Paris, quero novidades!
Então vou esperar que esse meu foursome se acabe, agradecer, lembrar dos bons momentos... e partir pra outra.
Mas, para isso, preciso terminar logo essa monografia.
[ Treze representa o recomeço.
Treze dias para a viagem.]

=/,
N.

Obs.: Os nomes se referem a:
Michael POLLAN - Em defesa da comida: um manifesto e O dilema do onívoro
Henrique CARNEIRO - Comida e Sociedade: uma história da alimentação
Carlo PETRINI - Slow Food
Michael ROUX - Sauces
Michael RUHLMAN - The making of a chef
Danny MEYER - Hospitalidade e negócios
Paula PARISOT - Gonzos e parafusos

{ Vinte }

Reativar esse blog sempre quer dizer algo bom. Quer dizer que em poucos dias estarei partindo sabe-se lá para onde, mas, seguramente, para algum lugar.
Dessa vez, estou entre os 10 melhores destinos do mundo, na minha opinião: Paris. Há quem considere a cidade como o melhor destino ever, há quem a coloque ali no meio de um saco cheio de outras cidades, e há quem pouco se lembre dela quando pensa em viajar.
Paris: o contraste das cores ao entardecer (o que, no verão, acontece um pouco depois das 20h)

É engraçado como somos diferentes, não é?
Vou falar um pouco sobre a minha experiência com a cité para colocá-los um pouco a par da nossa relação.
A primeira vez que pisei em solo francês foi em 2001. Fui à capital francesa com meus pais e minha irmã, numa época em que minha mãe dizia que deveríamos conhecer a Europa, caso não viéssemos a ter mais essa chance. Um presságio um tanto obscuro, mas achei a desculpa ótima! Eu mesma só pensava que alguma hora teria de conhecer a Europa para começar a me familiarizar com o destino que seria por mim tão procurado em todos os anos e contextos que se seguiriam. Então, que fosse logo!
Aos 18 anos, eu só falava o Inglês como língua alternativa à minha, então estava bem animada pra chegar a Londres. Apesar do sotaque, me diverti horrores lá, planejei uma viagem que não deu certo, pra Stratford-upon-Avon (terra de Shakespeare), entrei num ônibus errado com meu pai e, enquanto batíamos no vidro, trancados do lado de dentro, vimos minha mãe e minha irmã se afastando e se afastando, até descermos na próxima parada e voltarmos correndo pra encontrá-las.
Quando chegamos a Paris, decepção. Eu, que sempre tinha visto cartões-postais da torre mais famosa do mundo no verão, quando jardins inteiros floriam para melhor receber parisienses, turistas e fotógrafos (que depois espalhariam essas fotos pelo mundo todo em cartões postais, nos fazendo crer que Paris se mantinha assim o ano todo!!), me vi em uma Paris de outono, onde o céu era mais cinza do que azul e as árvores passavam um frio, sem ter uma folha de roupa ou uma flor de enfeite. Foram dias dos quais pouco me lembraria hoje, não fosse por meia dúzia de patadas parisienses que me estão ainda na lembrança.
De Paris pra Roma, a mudança foi tremenda! Descobri que fui italiana em alguma outra encarnação, só pode, e passei a viver meus dias, de volta ao Brasil, em programações infinitas de como eu voltaria pra lá e como seria quando eu finalmente estivesse de volta. Mas isso fica pra um outro post. Hoje vim falar da belle Paris.
(Foto: Livraria Gibert Jeune: você vai ver alguma pela cidade)
 Só fiz as pazes com a cidade luz em 2007, quando passei um mês estudando francês e morando com uma grande amiga, no 15eme arrondissement. Paguei 50 euros num vale-metrô mensal e 'vamo que vamo', as tardes eram passadas batendo perna por livrarias, museus, ruas, cafés e parques. Foi assim, aos poucos, que Paris me conquistou. Foi aos poucos que percebi que por trás da cidade insana -- onde o ritmo frenético não diminui, e os atendentes, os motoristas, as secretárias e os caixas, os vendedores de celular, os responsáveis por estoque, as mulheres chiquérrimas e magras, e as gordas e feias estão sempre mal humorados e achando o a-b-s-u-r-d-o do século você não ter se preparado melhor pra chegar nas férias parisienses fluente no francês -- havia também uma cidade para se passear pelo Marais e comer um kebab. Tomar um café na Place Saint Michel, ir à livraria Gibert Jeune e passar a tarde folheando livros que eu não entendia ou comer um crêpe bem servido pertinho da renomada Université Sorbonne.
   Café perto da Place Saint-Michel
Foi difícil ir embora. Ainda que me esperassem Turquia, Tailândia, Espanha, Marrocos e Itália, foi difícil deixar a cidade que me hospedou e cujas ruas acolheram meus passos sem que eu não soubesse falar mais do que meia dúzia de palavras. Durante todo o resto da viagem, toda vez que ouvia franceses conversando eu pensava no tempo em que passei lá, nos jantares que fiz na cozinha 2m x 2m do nosso estudiozinho. Das conversas até tarde com a Pri e das conversas jogadas fora em cafés acompanhada de pessoas que vinham de países cujas capitais eu teria que adivinhar no chute. Do camembert gostoso,  do iogurte de baunilha naquele potinho de vidro, do pan au chocolat da esquina. E do vai-e-vem de carros; e do vai-e-vem de pessoas um piso abaixo das ruas, se apertando para conseguir pegar o metrô e chegar a tempo.

20 é o dia do meu aniversário.
20 dias para a viagem.
=D,

N.